Este site é dedicado à memória de Claudio Cesar, e tem a intenção de registrar relatos que o próprio artista deixou em escritos ou através de conversas e entrevistas, bem como documentar as substanciais e impressionantes obras que fazem parte do seu acervo pessoal, muitas inéditas, além de obras de colecionadores.

Claudio Cesar de Campos Marques nasceu no dia 17 de abril de 1956, no Rio de Janeiro/RJ, sendo o caçula dos três filhos de José Marques e Tecla Teixeira Marques. Cresceu em um ambiente artístico-musical, atividade compartilhada e estimulada pelos pais, ambos musicistas. Seus irmãos Thaís e Luiz seguiram a carreira musical. Ele, porém, não demonstrou o mesmo interesse pela música, e tinha os desenhos e pinturas como sua aptidão desde a infância. Porém, dizia que não teve o apoio da mãe, “porque as tintas sujavam os tapetes e o sofá, e bagunçavam a casa, mas os instrumentos cabiam na sala das visitas”. “Eu precisava guardar todo o meu material após usar, mesmo que não tivesse terminado de fazer. Mas com desenho e pintura não pode ser assim.” Por isso, não teve uma educação formal para artes. Partiu então para o Direito, seguindo a profissão do pai. Afirmava que tinha feito tal escolha para agradá-lo.

Entrou para a faculdade de Direito em 1975 e formou-se em 1979, pela Universidade Federal Fluminense. Durante os anos de faculdade, teve muitas reclamações por parte dos professores, pois passava as aulas desenhando nos cadernos. Devido à sua insistência, os professores entraram em um acordo e liberaram “metade do caderno para matérias e metade do caderno para desenhos.” Anos depois descobriu-se disléxico e com déficit de atenção, justificando-se essa necessidade de estar riscando para prestar atenção às aulas. Aprovado na OAB, iniciou sua jornada trabalhando como advogado, em escritório e no Banco Nacional, onde acabou desenvolvendo funções na Assessoria de Publicidade e Comunicação, no Setor de Promoções e Relações Públicas, onde adquiriu considerável experiência neste campo de atuação, bem como na coordenação de eventos culturais. Participou ativamente da política de propaganda e publicidade da empresa e, simultaneamente prestou colaboração na área jurídica.

Mas em paralelo, conciliou cursos livres de Desenho e Pintura, incluindo cursos com Denise Azevedo, Gioconda Cavalieri e outros no SENAC-RJ e Parque Lage-RJ, além de Cursos de Teatro, um deles ministrado por José Wilker. Foi então que sua teatralidade falou mais alto, tornando-se, temporariamente, uma válvula de escape para sua veia artística, que havia sido contida por tantos anos. Deste modo, a encenação foi, por alguns anos, a sua arte, e atuou em pelo menos cinco peças teatrais, no Rio de Janeiro, de 1976 a 1982, no Teatro Casa Grande, Teatro Thereza Rachel e Teatro Vanucci, com direção de Wolf Maia e Sérgio Melgaço, sendo que, na última, foi responsável também pela cenografia. Participou também de um filme e interpretou, durante dois anos, uma personagem de festas infantis e no circo, que fez muito sucesso, parte de uma dupla de palhaços. Mas não conseguiu persistir na atuação, devido ao seu temperamento, pois tinha dificuldade em cumprir ordens, queria mudar os textos: “Eu não era comportado do jeito que tinha de ser, decorava mal os textos”. “Sempre fui um descomportado natural”.

Nos idos de 1983, viajou de férias pelo Nordeste e, ao conhecer Fortaleza, encantou-se pela beleza e pela luz da capital cearense. Nessa época, tinha uma vida animada e convivência com muitos amigos fluminenses, mas, sem motivo aparente, largou a rotina do Rio de Janeiro e passou temporadas por aqui. Tudo começou com uma viagem profissional, representando o banco em que trabalhava. Entre idas e vindas, conheceu Ariane Galeno, e se apaixonou. Logo depois, descobriu que ia ser pai. Foi quando tomou a decisão definitiva e mudou-se para Fortaleza. Casou-se em 06 de novembro de 1984, e em 06 de maio de 1985 nasceu seu grande amor, a única filha, Renata Guimarães Marques. Quando perguntávamos porque ele tinha vindo para cá, respondia que tinha vindo “fabricar a Renata”.

Após estabelecer residência em Fortaleza, permaneceu exercendo a advocacia por pouco tempo, e voltou a desenhar compulsivamente, o que descobriu depois de se ver desenhando nas capas de processo, enquanto analisava-os ou aguardava o momento das audiências. Era tão comum, que ele precisava comprar novas capas para os processos, às vezes três ou quatro capas para o mesmo processo. Certa vez, desenhou a juíza que ia supervisionar a audiência seguinte, enquanto estava na sala de espera. Falava que era uma mulher “bem gorda”, e ele a desenhou fielmente. Antes de entrar para a conciliação, teve que rasgar a capa do processo. Não foi fácil contornar a situação. E após ter rasgado tantas capas e os consequentes prejuízos, por ter que confeccioná-las novamente, abandonou a profissão.

Irrequieto e muito versátil na criatividade, talentoso e espontâneo, dono de um vozeirão, fez um curso profissionalizante na função de Locutor Apresentador-Animador, cujo certificado de conclusão foi assinado por Irapuan Lima, em janeiro de 1986. Trabalhou como radialista na Ceará Radio Clube, até 1988, quando lhe ofereceram um programa de fofocas. E ele pensou: “eu falar de fofoca?” E abandonou mais um emprego, pois era muito irascível, e dizia que “não aguentava receber ordens de patrão, eu nunca aceitei, achava um saco”. Foi quando concatenou que precisava ter uma profissão independente.

Então, a pintura ganhou espaço em sua vida. Nesse momento, recebeu apoio do pai, após o mesmo avaliar que tentou lhe desvirtuar das artes plásticas durante a vida inteira, mas que tudo foi em vão, como exemplo, ter lhe oferecido um fusca em troca da aprovação no vestibular. A partir daí, passou um ano apenas pintando. Começou a ter convivência com artistas locais, fazendo parte do cenário artístico de Fortaleza. Citava os artistas José Guedes, Roberto Galvão, Fernando França e Vando Figueiredo como amigos importantes no início dessa jornada, de quem recebeu muitos conselhos, sendo este último um grande amigo que o acompanhou por toda a vida, numa parceria de irmãos. Emília Porto, galerista, e também artista, foi uma amiga marcante nesse momento inicial. Nas palavras de Emília: “Claudio Cesar, o pincel que contava sonhos, também sonhos reais com pitadas de amor e generosidade. Um dia foi na Soho Galeria com um grupo de amigos. Porém, dentre eles era perceptível que surgia ali um artista diferente, contestador e com inteligência acima da média. Seu talento era algo libertador e impossível de ocultar. A partir dali começou a fazer parte da família Soho e meu amigo para sempre”.

No início da década de 90, integrou o Grupo Soho, formado por Emília Porto, Vando Figueiredo, Mano Alencar, entre outros. A aproximação com outros artistas lhe contextualizou para além do reconhecimento como ator das artes visuais. Num processo de elaboração, em que se conscientizou de que esta era a sua profissão, a que escolheu para a vida inteira, mas somente neste momento passaria a realiza-la, mergulhou nas telas e tintas, e nunca mais parou!

Sua pintura destacou-se desde cedo, pela personalidade disruptiva transferida à identidade artística, um tanto influenciada pelo déficit de atenção e a característica hiperatividade. Claudio Cesar estava sempre pintando várias obras ao mesmo tempo, com uma linguagem própria, uma profusão de imagens sobrepostas, múltiplos conteúdos com aparente desgarramento da temática, multicoloridas, às vezes caóticas. Algumas telas eram abandonadas e outras ele nunca sabia a hora de parar, mantendo-se em execução ao longo de anos. Havia elementos de sua pintura que sempre estavam presentes, repetindo-se em toda sua obra. Dizia que “meus elementos não estão na minha pintura, estão na minha cabeça. Eu acho que é muito bom para o artista ser um pouco louco”. Estes elementos representam suas memórias de infância, seus referenciais de família, sua saudade e seus traumas.

Contava-me sempre os detalhes de suas obras: eram segredos que guardava na pintura, fantasmas resgatados do inconsciente e elaborados em forma de caricaturas. Claudio nunca superou situações da infância, que poderiam ser corriqueiras para muitos, mas para ele tiveram conotação de dor, tal como uma fantasia de Tarzan que sua mãe lhe vestiu num carnaval. Enquanto seus irmãos estavam bem compostos de Carmem Miranda, a irmã e seu irmão de índio com vestimenta completa e cocar, sua roupa não lhe cobria nem as “partes de baixo”. E por isso, essa imagem virou cena de uma importante obra, considerada autobiográfica: “Fabricando Elefantes Todos os Dias”. Aliás, ele sempre se representava em suas pinturas, principalmente como releitura dessas memórias afetivas, tais como um garoto brincando com um fusquinha, ou na figura do Pequeno Príncipe, demonstrando seu lado sensível, inocente e esperançoso. Seu irmão estava sempre com o violino; a mãe, que se chamava Tecla, representada pelo teclado esvoaçante; a irmã ao piano; o pai sempre como “exemplo de carinho e fantasia”. Tinha a dose de “Biotônico Fontoura” que detestava, dizia que tinha medo daquela seringa. O elefante sempre aparece, uma analogia ao seu passado e à sua rotina diária. Dizia que, para viver, tinha que “fabricar um elefante todos os dias”.

Claudio Cesar parecia fazer autoterapia enquanto pintava, colocando para fora o que lhe amargurava, quase vingativo, ao pintar personagens como colagens do passado que transferia para sua pintura. Pintar era a única atividade que lhe fazia parar por horas, concentrando-se na tela. Dizia que nunca sabia o que iria pintar, apenas sujava a tela de tinta e ia deixando as imagens surgirem. Gostava de beber cerveja e cachaça, mas raramente bebia para pintar, exceto quando ia pintar com o amigo Vando Figueiredo, momento em que “viravam um litro de whiskie”. Também fazia questão de dizer que não cheirava nem fumava droga alguma, para pintar tantas loucuras: - “fui careta, gente”. Mas ao final de algumas obras: - “fiquei louco por uns dois dias”...

Em sua pintura, há um mundo do faz-de-conta, onde peixes voam, galinhas são assustadoras e fuscas rodam no fundo do mar. Ele nunca teve “paciência para olhar para uma paisagem e fazer como ela é, e nem olhar pra uma pessoa e desenhar como ela é. Eu logo mudo, eu não tenho paciência”. No seu mundo encantado, nada precisava ter lógica, e parques de diversão estão em todo lugar, como “parques inconscientes”. Seu imaginário envolvia sonhos inalcançáveis e momentos não vividos, que foram aspirados, mas nunca realizados. Seus elementos e fantasmas, que lhe perseguiram ao longo da vida, através dos traços eram libertados de forma catársica em forma onírica e lisérgica. É o mundo visto por uma criança que cresceu, mas não esqueceu. Gritos e memórias lúdicas, pincelada a pincelada.

Em junho de 2018, teve o diagnóstico de câncer de fígado, em estágio avançado, e faleceu em 28 de outubro de 2018, após lutar bravamente a última batalha de sua vida. Seu pincel silenciou, deixando um vazio na vida de todos que lhe amavam.

Ao longo da vida, deixou muitos escritos, com linda letra, onde fez narrativas pessoais, e registrou em versos, poemas, poesias e letras de músicas, que nos embarcam numa jornada sobre sua fabulosa arte e incrível história. Apesar da sua aparente desorganização, deixou muito bem doumentado o material que contribui para esta pesquisa, permitindo a imersão na intimidade dos seus pensamentos e sentimentos. Como ele disse: “desse somatório e das coisas erradas e malfeitas, eu tô aqui”. Há nesse conjunto uma série de inúmeras fotografias, documentos pessoais e de familiares, farta documentação de matérias em jornais e revistas de suas atividades, certificados emitidos ao longo da sua trajetória profissional, seja como advogado, ator teatral, radialista ou artista visual. Pelo estado de conservação de documentos muito antigos, como sua certidão de nascimento e seu histórico escolar, assim como uma série de fotos 3x4 que marcam seu tempo, percebe-se que essa herança lhe era muito importante e especial. Claudio Cesar era um verdadeiro colecionador de sua história, metódico na organização das coisas, denunciando seu apego sentimental ao passado. Dos objetos deixados em sua casa, tinha uma coleção de rádios antigos, uma numerosa coleção de discos de vinil, máquinas fotográficas antigas e muitos livros, de arte e literatura. E diante de toda essa riqueza histórica e cultural, procurei valorizar cada minúcia que ele guardou por tanto tempo.

Uma das fontes, é um caderno pautado, cuja capa estampa uma bela foto de sua filha Renata, num trabalho de modelo fotográfico, comprado no Mercadinho Duas Irmãs e que custou à época R$ 8,17, dados ainda contidos na etiqueta original de preço. Noutro caderno, deve ter passado dias a fio fazendo caligrafia, pois gastou a metade do caderno escrevendo frases soltas, ou estórias sem nexo, copiando textos e desenhando o nome de personalidades, para treinar a letra artística de convite de casamento (lettering). Existe também uma extensa catalogação de frases famosas de grandes pensadores, filósofos, poetas e escritores, que escreveu à mão, organizadamente. Por vezes, encontram-se páginas de desenhos e frases ou nomes de personagens ou atrizes, anotações que fazia enquanto assistia TV, bem como anotações semelhantes enquanto assistia aulas, comprovando a necessidade desse seu método de concentração, usado desde a infância.

De dentro da “pandórica caixa do seu coração”, exaltam-se sentimentos, saudosismo e memórias afetivas de um menino que nunca deixou de existir, e acompanhou Claudio Cesar por toda a vida. Sensível, sofreu até com o progresso que asfaltou suas lembranças da cidade de chão de terra batida, Galiléia-MG, morada da sua avó paterna, na qual passava as férias de infância, onde aprendeu a andar de bicicleta, a namorar e onde fez muitas peraltices. Sr. Marques sempre foi seu maior referencial, e permaneceu sendo uma saudade inesquecível por toda a vida, e de quem herdou o amor aos livros, e tornou-se um devorador de diversos estilos de literatura, capaz de conversar com profundidade sobre diversos temas. Dizia que seu pai “era o meu poeta preferido”, e que, na criação dos três filhos, “a mamãe era o feijão, e papai era o sonho”.

Nos últimos meses de vida, nos aproximamos muito. Ele queria conversar, contar histórias... fez vídeos falando de suas obras, suas inspirações e demonstrava muita vontade de viver. Nunca perdeu as esperanças! Durante os dias em que esteve internado, desenhava os doentes do hospital, se desenhava com humor, mesmo naquele estado caquético, e pedia, a todos que lhe visitavam, para que levassem mais material de desenho: - “caneta nanquim ponto, zero, cinco (.05) e papel”. E repetidas vezes pediu para que eu e Andréa Dall’Olio cuidássemos de sua obra e do seu amor maior, a filha Renata, a quem nutrimos um cuidado fraternal, às vezes maternal, mas sempre sincero e imaculado.

Após sua dolorosa partida, passamos a catalogar as numerosas obras deixadas, seus objetos pessoais e o arquivo confessional de que tanto nos falou, tudo pronto a ser explorado e divulgado, rico também em poesias e letras de músicas, mas sempre auto-descritivos.

Claudio Cesar fez-se saudade, mas não deixou sua história silenciar, nem perder os matizes que ora imprimimos neste livro, dedicado à sua memória, arte e genialidade!

Veridiana Brasileiro

Colecionadora de arte e médica

CLAUDIO CESAR

O Que Muitos Não Viram